Resposta


Filhos, quando eu estava no encontro preparatório para pais adotivos, durante o processo de habilitação, muitos dos participantes já se mostravam extremamente angustiados com incerteza da espera na fila, ainda que a espera propriamente dita sequer tivesse começado. Algo compreensível, na verdade. Uma porção deles vinha de uma longa e desgastante batalha pela gravidez e a grande maioria ansiava por um bebê, o que significava aguardar por seis ou sete anos o filho sonhado. Nesse ritmo, o tempo não era mesmo um aliado.

Mas apesar de compreender plenamente os motivos dos demais, eu rejeitei aquilo para mim. Resolvi não sofrer enquanto esperava vocês. Não xinguei o sistema, não pressionei os funcionários da Vara toda semana, não comprei roupas ou móveis e, quando os amigos perguntavam a respeito, respondia simplesmente que a adoção ia demorar e mudava de assunto. Sua avó, no Natal, arriscava, “será que ano que vem haverá uma criança para comemorar com a gente?”. “Acho que ainda não” era minha resposta de praxe.

Entretanto (ah, os poréns) para que meus planos dessem certo e eu não mergulhasse no poço escuro do relógio do aguardo, tive de renunciar a qualquer expectativa. Eu simplesmente não imaginava sua chegada, seu barulho, sua presença. Salvo por raras exceções, como a ideia de que minhas crianças seriam negras e mais velhas, eu não desenhava vocês nos ambientes da casa ou da vida. Que viessem quando fosse a hora, que chegassem com as feições e jeitos que tivessem. Sempre me vinha à cabeça uma música que falava de expectativas desleais e, bem, eu não queria ser desleal com vocês. Aproveitei o tempo para ler bastante sobre história de adoção dos outros, para tirar dúvidas e partilhar o que ia aprendendo.

Claro que a minha decisão gerou ganhos e perdas, como toda escolha acarreta, mas essa foi a trilha que percorri, a de aguardar por dois alguéns, tentando não esperar muito deles (e olha que, ainda assim, eu me espatifei por imaginar só crianças mais velhas e adotar um carinha de fraldas). Na época, tratava-se de abrir espaço para o que vem, sem saber quem virá, nem quando.

Foi aí vocês chegaram, até mais cedo do que eu previa. Aterrissaram feito turbilhão, redemoinho de gente que tirou tudo do lugar, pelo menos até que eu me acostumasse a elevar a vida ao quadrado. Caos define bem nossos primeiros meses juntos, nem sei dizer como nos entendemos.

Mas o tempo, essa senhora de saias longas, é pródigo e costuma responder no inesperado dos dias.

Hoje, quando vocês estão brincando no cômodo ao lado, na varanda ou no pátio, e eu só ouço suas vozes infantis, comentando como a pintura do outro está bonita, como a formiga carrega a folha gigante ou sobre o herói favorito – nas horas em que eu mais escuto que vejo – é então que alguma coisa me diz que era isso o que eu estava procurando sem saber o nome. O que eu intuía na névoa da não expectativa. A resposta chega e me explica o que eu tateava aleatoriamente. Me acha. Ela dança a minha volta ao som de gente crescendo, de conversas ao fundo, risadas entre os vasos de planta. Era a música da voz de vocês que eu precisava encontrar.


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