Onírica


Filha, anos atrás, sonhei que estava fazendo um cruzeiro e o navio tinha parado em uma cidade costeira, colorida e animada. Eu percorria praias e mercados locais, observando tudo, me divertindo à beça. Mas, no meio da tarde, perdi a hora do embarque e vi o barco partir sem mim. Fiquei só, em um lugar desconhecido, sem bagagem e sem dinheiro. Não me desesperei e comecei a caminhar em busca de uma solução improvável. Andei por horas a fio até o início da noite, quando fui cercada por um azul ainda não tão escuro, espetacular. Pelas casinhas brancas pousadas nas encostas, acessíveis por escadas de pedras que eu subia sem hesitar, soube que eu estava numa cidade grega. Lembro de me perguntar por que não se viam mais fotos noturnas da Grécia, tão bonito era o conjunto.

Subi até chegar em frente a uma casa parecida com as outras. Bati palmas e um homem abriu a porta. Eu já o conhecia, mas, no sonho, ele era bem mais jovem do que em minhas lembranças e não sabia quem eu era. Comecei a contar o me ocorrera quando uma voz feminina interrompeu o diálogo:

- Quem está aí?

- É uma moça. O navio a deixou a na praia e ela não tem onde ficar – resumiu o homem.

- Deixe ela entrar.

Nessa hora, a mulher veio até a porta e eu a vi sob a luz do interior da residência. Era a vez de me identificar:

- Sou eu, vó. Sou eu a pessoa que você deixou entrar sem saber quem era.

Aqueles eram meus avós paternos. Ele já falecido na época do sonho, ela ainda não. Sempre nutri amor e admiração pela minha avó, mas naqueles dias vivíamos um período estranho e confuso, que podia gerar uma grave fissura entre nós. O sonho apaziguava os ânimos, ao me lembrar da natureza essencialmente generosa e altruísta da minha avó, que tão acertadamente tinha nome de céu.

O tempo passou. Ela se foi, deixando muita saudade, uma quantidade enorme de filhos e um exemplo de lucidez que poucos deles seguiram. Guardei a história do navio e da costa com respeito e gratidão, no baú das memórias não ditas.

Até que, bem recentemente, vendo umas fotos para o trabalho, me deparei com imagens de cidades gregas. Uma delas bem parecida com a do meu sonho, cheia de escadas e casas brancas em frente ao mar. Na legenda, havia o nome da cidade. O seu nome, filha.

Claro que é uma coincidência, que o inconsciente cria os cenários mais adequados para as ações que a mente precisa representar, sem adivinhar futuros. Mas na fartura imaginativa que as coincidências provêm aos humanos, é uma delícia cogitar ser você, filha, o lugar de me perder e de me achar, onde, depois de cruzar oceanos de distância, encontro uma porta aberta acolhedora, a da própria família. Enseada de casinhas brancas, onde só cabe o essencial, em que o mar esculpe a pedra e a noite me abraça, estonteante.

Em tempo: seu nome, filha, significa “aquela que veio da cidade”.

Minha cidade, meu porto, minha viagem, minha aventura. Combina.



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