De espadas e escudos


Filho, nunca, em momento algum, pensei em adotar uma criança tão pequena quanto você, que chegou aos dois anos. Desculpe não estar preparada. Desculpe ter metido os pés pelas mãos dos jeitos mais estapafúrdios e inábeis que existem. Perdão por não sido a mãe que você merecia e precisava por um bom tempo. Ao contrário do que houve com sua irmã, que deu muito, muito trabalho no início, mas com quem rapidamente entrei em sintonia, minha relação com você demorou a se firmar. Não por algo que você tenha feito, mas pelas muitas partes estilhaçadas no coração de sua mãe. Você, menininho inesperado, me colocou em contato com os imensos traumas que acumulo em relação ao masculino, me tragou para o poço profundo das lembranças sombrias. Foi incrivelmente pesado e visceral.

Mas sua presença também começou a me salvar do passado. Por você, tenho desfeito laços tóxicos, afastado quem me desequilibra. Por você, tenho dito “não” e destituído o poder de outras pessoas, para que você floresça, liberto de toda penumbra. Em especial, aprendo a não ser tão ressentida. Saiba, L.o, que é uma luta ferrenha matar meus fantasmas para ser sua mãe, que brigo por você todo santo dia, duelo contra minha natureza e enfrento o dragão da maldade que reside no coração de cada homem e mulher. Mas, filho, eu vou ganhar essa guerra. A gente merece, precisa e anseia por isso, somos destinados à luz.