2017


Filhotes

Vai necessário muito chão e muitas luas para que vocês entendam o tamanho de 2017.

Nele, vocês trocaram o Norte das águas, a cidade da chuva, pelas quatro estações do Sul. Outros sabores, outras gentes, longe de tudo que conheciam.

Cessou a errância entre os abrigos e o cuidado fornecido por estranhos sucessivos. Agora vocês têm uma casa, que chamam de “nossa” como se sempre tivesse sido, e poucas mãos os guiam, as mãos do pra sempre.

Vocês ganharam uma mãe, uma avó, família e amigos, pessoas que fazem jus a uma música antiga, que descreve gente com habilidade para dizer mais sim do que não.

Em 2017, vocês também reduziram o contato com seus outros irmãos, especialmente com o J., e ganhamos todos o desafio de manter acesa a chama da irmandade, a despeito da distância.

E regras. Ah, as regras… L.a, L.o, quantos novos códigos passaram a reger suas vidas subitamente! Todo um mundo novo de condições para apreender, questionar, negociar. Sei, ou acho que sei, o quanto a adaptação exigiu de vocês, o volume de zanga, incompreensão e susto que ela custou. Se servir de consolo, saibam que a recíproca foi verdadeira. Vocês dois e todos os adultos que os cercam passaram por um momento de crise após a adoção, em tempos e de jeitos diversos. A mudança não poupou ninguém.

Em 2017, vocês ganharam corpo, literalmente. Coxas, bochechas, carninhas roliças. No início, um peso mal distribuído, concentrado em poucas partes, mas agora uniforme e saudável. Aquela redondez típica da infância, que às vezes míngua, às vezes farta, dependendo da peraltice de cada época.

De antes, vocês guardam algumas saudades. Uma cuidadora dedicada, algumas crianças do abrigo, um brinquedo ou objeto que não veio. Que bom, que alívio. Para mim é sempre um alento pensar que vocês tiveram momentos de alegria antes de nos conhecermos, quanto mais, melhor. Festejemos o que o passado legou de saboroso.

Ainda em 2017, o ano que acaba amanhã, escrevo enquanto vocês dão banho nos brinquedos, mergulhados numa pequena piscina inflável. Suas risadas de vez em quanto enchem o ar e, vez por outra, ralho com um dos dois, mas logo a gente esquece. Estamos em um dessas cenas lindas de tão simples que são. Sua avó costuma dizer que, quando chegaram, vocês eram crianças tristes. L.a, sobretudo, mostrava os dentes, mas pouco sorria. Agora, os sorrisos espontâneos já não são raros; a voz de vocês, que ainda insiste nas canções de Natal, preenche os espaços abertos, sem limites.

Que 2018 nos encontre assim, limpos feito os brinquedos, risonhos sob o sol ameno, esperando a hora do sorvete chegar.

Da minha parte, me dobro em reverência às mudanças que o ano trouxe, com a humildade de quem sabe o quilate das bençãos que recebeu. Obrigada, 2017. Foi tudo muito difícil e iluminado, como normalmente são os nascimentos de toda a espécie.


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Sobre o corpo, sobre vocês



Pequerruchos,

O texto abaixo não é para vocês, é sobre vocês. Ele foi escrito depois que o Festival de Dança da cidade em que moramos sofreu críticas e represálias por uma apresentação que continha (uma bem comportada) nudez. Ele reflete minha esperança de que sua geração seja menos careta que a da sua mãe.


A NUDEZ COMO DIREITO


Assistir a espetáculos de dança me ensinou sobre o corpo. Com eles, aprendi que a potência e a explosão do corpo no palco dinamitam a mesquinharia das dicotomias banais, de corpos bonitos/feios, obesos/magros, adequados/inadequados; no palco, todo corpo é estupendo. Também compreendi que o corpo pode, ele pode absolutamente qualquer coisa, se assim o desejar; sob as luzes, ele é invencível. Consolidei ainda a certeza de que a nudez não é um convite ao coito, mas uma entrega voluntária do artista ao público daquilo que ele tem de mais íntimo e vulnerável - sua pele sem disfarces, puro movimento.

Faço absoluta questão de que os meus filhos assistam a apresentações de dança em geral, incluindo as de nudez. Considero o acesso a tais produções um direito fundamental e inalienável do indivíduo em formação. Ao espetáculo, minhas crianças oferecem o olhar cândido de quem vê o corpo nu como alimento, fonte de leite e calor. Em contrapartida, o espetáculo expõe a eles o corpo como planejamento, técnica, narrativa e descrição dos estados d’alma. Desse intercâmbio, nasce algo tão bonito que também lembra a nutrição: o deleite.

Quero criar uma filha que construa alegria e prazer a partir de seu corpo, sem ser oprimida pelos padrões hegemônicos de beleza ou pela fragilidade física de seu gênero. Que ela jamais sinta medo simplesmente por ter um corpo. Igualmente, quero criar um filho que construa alegria e prazer a partir de seu corpo, sem nunca usá-lo para subjugar quem quer que seja, muito pelo contrário. Que ele saiba ter o corpo de um homem, não o de um macho. Que meus filhos celebrem seus corpos como os espaços sagrados que são; que zelem por sua saúde; que compartilhem aromas com seus futuros parceiros, de maneira adulta e consensual, porque o corpo deve ser a morada do amor, tanto do amor próprio quanto do destinado ao outro.

E, sim, a arte me ajuda nesta missão, porque ela forma pessoas críticas, capazes não só de existir, mas também de ser. A arte e a educação, juntas, representam a vitória da humanidade sobre a barbárie, elas nos ensinam todos os dias que o medo do corpo é sempre o medo da liberdade. 


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