Inside


Filha

Existe um tipo de sonho comum a muitas pessoas, em que você está na própria casa, mas, de repente, encontra nela uma série de cômodos desconhecidos, normalmente amplos e atraentes. Às vezes eles estão mobiliados, às vezes vazios. Alguns te permitem visualizar apenas o ambiente interno, outros abrem suas janelas a paisagens surpreendentes. É corriqueiro que o sonho ocorra quando você anseia ou experimenta algum tipo de expansão, uma abertura interna de horizontes. Este espaço novo somos nós, nossa cabeça, nossas habilidades, crenças e talentos a se ampliarem ou pelo menos a saírem da escuridão da ignorância para a luz da consciência.

Você, L.a., é um todo mundo inédito, próprio, seu, mas é também o sonho que inaugura salas, quartos e varandas na casa de sua mãe. Você me cresceu. E um dos cômodos mais intrigantes que vieram à tona com a sua chegada é, ao mesmo tempo, muito novo para mim e antiguíssimo na história do mundo, é o espaço que abriga o sagrado feminino.

Você me instrui sobre ele quando põe em funcionamento seu incrível senso de organização e me ensina a colocar cada coisa material e imaterial no devido lugar. Quando cuida das bonecas, do seu irmão e de todo mundo que considere mais frágil no momento. Quando lidera as atividades e toma a frente até dos adultos, sem pestanejar. Quando reconhece com tanta naturalidade as semelhanças e diferenças entre nós. Quando, nas noites de insônia, você me pergunta sobre sua avó, sua bisa e outras mulheres que a antecederam, reconhecendo que todas são, em parte, suas mães e suas filhas (essas foram palavras suas). Assim, você entrelaça gerações, formando um desenho original na antiga trama da vida. Você brinca de ancestralidade como quem colhe flores, filha, e fala sobre a minha avó, falecida poucos meses antes da sua chegada, com uma familiaridade assustadora.

O feminino que você me inspira, L.a., usa saia florida, tem premonições sobre o futuro, investiga o coração das pessoas e cria um vínculo que me liga a você e a uma legião de mulheres diferentes entre si, mas que reconheço como parceiras no segredo que carregamos. E isso, filha, é mesmo sagrado.

Por esse e outros espaços que você me abriu, meu amor, obrigada. Eles têm vista para o mar.

     
Imagem gratuita do pixabay