Depressão pós-adoção


Filhos

Eu me questionei um bocado se deveria escrever sobre o assunto, se os benefícios valeriam as sombras que o tema inevitavelmente gera. Daí lembrei dos quatro princípios que escolhi para a educação de vocês e que nos guiarão nessa aventura avassaladora chamada família. A verdade é um dos pilares eleitos, mesmo que ela faça doer ao pavimentar os caminhos. Então vamos.

Tudo começou antes mesmo de trazer vocês para casa, quando ainda estávamos no estágio de aproximação. Era uma sensação constante de estranhamento, de que tinha algo importante fora do lugar. Culpei o cansaço, o stress, o excesso de decisões fundamentais que estavam sendo tomadas em um curto espaço de tempo e segui em frente. Todo dia acompanhando a evolução de ambos, gradual e contínua. Todo dia me sentindo um pouco pior.

A coisa estourou mesmo um mês após nossa chegada em casa. Eu tinha caído num buraco muito mais profundo que a minha capacidade de salto. Quando acordava, olhava para o relógio e calculava quantas horas faltavam para voltar a dormir, queria que o dia simplesmente se extinguisse. Eu só conseguia enfrentar as piores partes da rotina criando fantasias bizarras, que acalentavam meu coração com desejos de morte. Quis sumir. Quis esquecer. Quis deixar de ser.

E tudo isso não fazia sentido algum. Vocês, as crianças tão sonhadas, estavam ali, aprendendo a me chamar de mãe, a ganhar colo de vó, a escalar o tio comprido, a desbravar a escola. Mais gordinhos, mais risonhos, mais à vontade para fazer tolices, mais tudo. E eu, a mãe, afundando sem escalas na areia movediça.

Com toda franqueza do universo, eu poderia imaginar tudo com relação à maternidade, qualquer tipo de desafio a enfrentar, menos que eu seria minha pior inimiga. Que partiria de mim a rejeição, o desamor, a afronta frente ao presente que a vida tinha me dado. Virei a personificação do pesadelo que eu nem sabia ter.

Como todo problema maiúsculo, a depressão não tem uma única causa e hoje somo várias hipóteses para tentar entender a minha. Primeiro, meu pai tem uma forma atípica e muito severa da doença. Mesmo sabendo do componente hereditário do problema, achei que eu estava a salvo do risco, imaginava que, se algo tivesse que me assolar, já teria aparecido anos atrás. Ledo engano.

Segundo, a depressão tem tudo a ver com a intensidade das coisas. O que significa que mesmo eventos muito aguardados podem desencadear uma crise. Ironicamente, felicidade também dá tristeza e isso é de um desconsolo tremendo.

Terceiro, ao contrário do que ocorre com a maioria dos adotantes, eu sempre quis um estágio de aproximação longo, com pausas para reflexão, intervalos entre as visitas, respiro,  preparação e certeza. Mas como vocês vieram de muito longe, tudo isso foi para o espaço. Não dava para ficar todo o tempo do mundo fora, sem trabalhar, na casa de parentes (mesmo os mais amados), com a vida em suspenso. Era preciso trazê-los rapidamente e muita coisa foi atropelada, para mim e para vocês.

Havia também a questão do perfil. L.a. atendia às minhas expectativas quanto à idade. L.o. não. Jamais quis um bebê ou uma criança pequenina, nunca me senti atraída por elas e não estava nos planos um garotinho ainda de fraldas.

Aliás, nem mesmo um garotinho. Meu perfil no Cadastro Nacional de Adoção era estritamente feminino. Só depois que comecei a terapia, percebi o quanto a minha relação com o sexo masculino em geral estava deteriorada e que eu teria de desconstruir décadas de desconfiança profunda em relação aos homens. Hoje, L.o, um dos meus maiores cuidados é não ver em você o que os outros foram.

Há também a questão de vocês terem chegado dois de uma só vez. Um amigo me alertou que pais de gêmeos têm muito mais depressão que os de “uma criança de cada vez”. Claro, é maravilhoso o apoio que vocês oferecem um ao outro, o quanto a presença do irmão/da irmã facilitou a adaptação, mas nem por isso deixa de ser pesado abraçar duplamente, sobretudo no caso de uma mãe tão amadora feito eu.

Filhos, eu sou amadora no sentido mais amplo da palavra. Simplesmente não havia crianças na minha vida antes de vocês chegarem, nem sobrinhos, nem nada. Somente a V., minha afilhada afetiva, cumpria esse papel, mas ela sempre foi mais adolescente que criança, sempre esteve anos a frente da própria idade. Por mais que eu quisesse isso – e eu queria muito – vocês foram um tsunami infantil em uma vida inteiramente adulta. Imagino que com a redução drástica do número de filhos nas últimas décadas e com o fato de os casais demorarem mais tempo para tê-los, esse seja um problema bem mais comum hoje em dia que foi no passado.

Talvez durante muito tempo eu seja a única mãe adotiva que vocês conheçam que vá falar sobre o assunto. A maioria passa por anos de tentativas infrutíferas de gravidez e depois outros tantos na fila da adoção, o que gera uma negação profunda em admitir qualquer tristeza ante a chegada dos filhos. Falta discussão, faltam pesquisas sobre o tema, falta saber como sair dessa.

E foi mesmo bem difícil deixar do fundo do poço, se é que eu posso dizer que estou fora dele.

A presença da sua avó foi fundamental nesse processo, mesmo depois que o assunto se tornou tabu entre nós duas. Ela é minha bússola na vida, na de vocês também.

A terapia foi outra instância decisiva. Muitos amigos ofereceram ajuda (obrigada, obrigada, obrigada!), mas não deu para dispensar orientação profissional. Fui acompanhada por uma psicóloga do postinho de saúde perto de casa, pelo SUS, que demonstrou que coisa linda é o atendimento público de qualidade. E se eu tivesse que ir para o psiquiatra e tomar remédios, beleza, iria sem preconceitos. Ninguém deve temer pedir ajuda quando precisa.

Também li tudo que recomendaram. Me obriguei a cumprir práticas diárias que percebi como terapêuticas. Fiz tarefas de casa. Me esforcei e me esforço horrores para ficar inteira, às vezes com sucesso, noutras não. Ainda tenho episódios intensos de disforia, quando nada dá alento, mas já não é todo dia, nem o dia todo.  E coisas completamente inusitadas tem ajudado de maneira surpreendente. Por exemplo, comecei a seguir dezenas de pessoas estranhas no Instagram, gente de idades, profissões e lugares diversos. Uma delas é uma mãe de quatro filhos, todos eles planejados, ou seja, trata-se de alguém que gosta e entende da coisa. Depois do nascimento do caçula, ela escreveu que, mesmo com a experiência acumulada, é difícil se acostumar a uma nova pessoa na sua vida e quase tudo se resume a isso: acostumar-se. Acostumar-se com o bom e com ruim, porque tudo vem no pacote. Por mais que se ame alguém, não é divertido dar banho nessa pessoinha diariamente por anos a fio, o jeito é se acostumar e ponto. Pode parecer uma ideia simplória, só que não.

Falando nisso, para mim foi uma surpresa me reconhecer mais no relato de desespero das mães biológicas de recém-nascidos que nas falas das mães adotivas. Sempre rejeitei convictamente as analogias entre adoção e nascimento, mas tive que dar a mão à palmatória que eu parecia muito mais com as descabeladas dos bebês que de qualquer outra figura materna.  E quero deixar registrado meu imenso pesar por elas, pelo fato de a depressão pós-parto ser considerada apenas uma consequência hormonal, quando isso é apenas a ponta do iceberg. Crianças são drogas da pesada.

No meu caso, a adoção foi um gatilho para um episódio depressivo grave. Outros fatores e acontecimentos também poderiam detonar uma crise e ainda podem. Pelo resto da vida eu vou precisar me cuidar, identificar disparadores e desativá-los. E notem a fina ironia, para quem tem medo de a adoção trazer um filho com algum problema, taí um problemão que é da própria adotante e não da cria. Ninguém está a salvo sequer de si mesmo.

Ter vocês, L.a e L.o, conhecê-los e adotá-los, foi desde o início uma experiência emocionante, mas só agora começa a ser uma experiência feliz. Aos poucos, vamos acertando nosso ritmo na valsa e a coreografia ganha contornos mais suaves. De toda essa história, que nos reste uma grande certeza, de que sua mãe lutou e ainda briga muito para ficar bem por vocês, para vocês. Meu pai não tomou essa mesma decisão, na hora de escolher entre a família e a doença, ele seguiu pelo caminho errado. Já as nossas trilhas vão até as águas da vida. Vocês não são minha doença, são minha opção pela sanidade, são minha saúde. No futuro, espero ser parte da de vocês.


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A soma das letras

Filhotes

Gosto de perguntar para os amigos a história de seus nomes, entender como eles se tornaram Marias, Custódios, Sephoras ou Túlios, descobrir onde pais e mães buscaram inspiração na hora de escolher uma marca tão profunda para os rebentos.

Normalmente, as respostas me permitem um vislumbre privilegiado do jeito de pensar e de ser de cada família, uma bisbilhotice consentida que já me proporcionou relatos engraçados, inusitados, às vezes até trágicos, não raramente comoventes.

Mas apesar da minha coleção particular e deliciosa de narrativas, muito provavelmente eu mesma jamais saberei a história dos nomes de vocês, meus filhos. Nunca vou descobrir se eram desejos antigos ou foram frutos de um impulso, de quem terá sido o deleite ou o ônus da escolha, como e quando o martelo da decisão foi batido. Simplesmente não há, nem haverá respostas para estas e outras dezenas de indagações que teço sobre suas vidas antes do nosso encontro.

Por mais paradoxal que pareça – e é – uma parte de mim é atraída exatamente pelo mistério sereno, porém contundente, que os cerca; pela impenetrabilidade da esfinge que jamais revela seu segredo primordial. De novo, não há, nem haverá respostas. E, filhos, saibam: há muita força em não saber. Um poder que respeito e aceito.

Outra parcela de mim, no entanto, receia que seus nomes, somados às demais questões insolúveis que virão, alimentem em vocês o senso de vazio das origens. Espaço em branco impertinente, desses que não matam, mas magoam.

A esse respeito e também sobre os muitos silêncios que enfrentaremos pela frente, tenho apenas uma coisa a lhes dizer: à medida que a vida segue, colorida e intensa, cada vez importa menos de onde a gente vem, ganha mais relevância para onde a gente vai.

Por coincidência, L.o., você veio parar em uma família em que seu nome já era marca registrada. Uma tradição inesperada caiu no seu colo, você é o quinto menininho, em três gerações, a chamar-se do mesmo modo. Mas nem por isso a vida está ganha. Os adjetivos que as pessoas vão associar a você não vão depender de seus homônimos, mas exclusivamente de seus talentos individuais, do que você vai ser e fazer. O sentido do seu nome é você quem vai criar e recriar. Prometo, meu guri.

Já o seu, filha, também é um achado. Não posso escrevê-lo ainda aqui, mas L.a. parece, simultaneamente, um diminutivo e um superlativo e você não poderia ter retrato mais fiel – é uma pequerrucha em estatura e imensa no espaço que ocupa em nossas vidas. No que mais você será superlativa, só tempo e suas escolhas vão dizer.

Nunca cogitei trocar seus prenomes, eles são um pedaço indissociável das pessoinhas que entraram por aquela porta para ficar. Apenas acrescento o sobrenome como um abraço apertado em público, um sinal de fumaça para o resto do mundo, que ainda precisa processar a mudança ocorrida da família para dentro. Vocês, eu, sua avó, seu tio, seus parentes de perto e de longe vamos compartilhar esse conjunto de letras e sons que nos irmanam na tribo que somos. Que vocês o carreguem com apreço.

E nunca, jamais, em tempo algum, esqueçam da verdade profunda que sua mãe cultiva: vocês não são os nomes que selecionei, são as pessoas que escolhi.


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