Para brincar na gangorra: dois

No avião, vindo para casa

Minha prole
Vocês têm uma foto no interior de uma cabaninha infantil, sentadinhos, concentrados, um brincando em frente ao outro. Ela foi tirada depois de vocês saírem do abrigo e antes de chegarem em casa (houve alguns dias entre uma coisa e outra). Eu ainda era para vocês uma estranha prestes a levá-los para longe de tudo que conheciam e, por mais que eu tentasse descrevê-lo, seu futuro lar era uma incógnita. As pessoas que eu mencionava – vovó, tio, amigos – apenas nomes desconhecidos e sem rosto, ecos sem grande sentido.
Olhando hoje para essa imagem, revejo duas criancinhas mais magras e mais sisudas do que são agora, o L.o. pouco falante, a L.a. raivosa, os dois certamente perdidos no ambiente estranho, sustentados por uma única certeza, um só pilar de sustentação e conforto: um ao outro.
Antes de conhecê-los, sua avó tinha receio da adoção de duas crianças de uma só vez, no que ela tinha absolutamente toda a razão. É mesmo uma extravagância assumir uma responsabilidade dupla e simultânea. Não são poucas as ocasiões em que o número par me oprime e parece muito além do que eu posso abraçar. Mas quando isso ocorre, quando descubro o quanto sou insuficiente, inapta, incapaz e todos os outros “ins” possíveis, respiro fundo e penso que, graças ao Universo, vocês têm algo maior que eu: um ao outro.
Me interessa essa relação que me ultrapassa em todos os sentidos. Ela antecede a minha chegada e vai perdurar quando eu não mais existir. É um clube secreto do que não faço parte, que apenas observo de longe, só vocês dominam as senhas de entrada.
Vocês têm outros irmãos biológicos, com três deles mantêm contato. Fico pensando como será o encontro dessa turminha no futuro, o quanto vão se reconhecer e se estranhar em feições e comportamentos. Algumas vezes será inevitável o exercício do “e se?”. E se vocês tivessem crescido todos juntos? E se ao invés de ter adotado o L.o. eu tivesse me tornado mãe do J. (a criança que inicialmente fui conhecer)? E se tivesse sido outra a divisão das crianças entre os adotantes? As especulações acompanham o ritmo de possibilidades. Mas, lá no fundo, espero que vocês compartilhem a mesma crença que eu, de que o universo conspira a nosso favor e de que tudo se arranjou de maneira a compormos a família que já deveríamos ser. L.a, L.o., vocês são um do outro nessa cabaninha partilhada vida afora.
Olho para a foto que já considero antiga e nela vislumbro o resumo da trajetória que vocês trilharam até aqui, tão difícil para crianças tão pequenas, tão bonita que chega dói. A adaptação, os tropeços, as descobertas e o crescer.
Há pouco tempo, tive a chance de captar outra imagem emblemática. Enquanto eu escolhia a roupa que vocês iam vestir, os dois escaparam para o chuveiro e um começou a dar banho no outro. Normalmente não deixo as crianças assumirem tarefas que ainda são dos adultos, mas dessa vez deixei. Sem que percebessem, tirei uma foto da cena e desta vez vejo não o passado, mas o futuro, feito um flashback às avessas. Visualizo os dois brincando de tobogã pela primeira vez, comparando o valor das mesadas, gritando “se ele(a) pode, eu também posso”, trocando músicas, discutindo profissões, cuidando na doença, apresentando amores. Nossa, como vai ser quando vocês apresentarem seus filhos um ao outro...
Eu e seu tio Fabio também brincamos, brigamos e crescemos juntos. Temos praticamente a mesma diferença de idade que vocês e nascemos na mesma sequência, menina-menino. E, claro, temos nossas fotos-símbolos, inclusive uma em que dividimos um pequeno barco numa praia gigantesca. E ter um irmão ou irmã é isso mesmo, embarcar na mesma canoa nesse vasto mundo de meu Deus, é dividir a mãe, a avó, o tio, o babá, o teto, o pão, o choro, o pula-pula, os tempos prósperos, o aperto inesperado, as regras, as liberdades, a infância e o porvir. Filhos, sejam felizes como irmãos. Eu sou, espero que seu tio também. A vida não lhes deu, nem lhes dará tudo, mas reservou para vocês um tesouro inestimável: um ao outro. Presentes mútuos e incomparáveis. Reconheçam-se como tal.

Inside


Filha

Existe um tipo de sonho comum a muitas pessoas, em que você está na própria casa, mas, de repente, encontra nela uma série de cômodos desconhecidos, normalmente amplos e atraentes. Às vezes eles estão mobiliados, às vezes vazios. Alguns te permitem visualizar apenas o ambiente interno, outros abrem suas janelas a paisagens surpreendentes. É corriqueiro que o sonho ocorra quando você anseia ou experimenta algum tipo de expansão, uma abertura interna de horizontes. Este espaço novo somos nós, nossa cabeça, nossas habilidades, crenças e talentos a se ampliarem ou pelo menos a saírem da escuridão da ignorância para a luz da consciência.

Você, L.a., é um todo mundo inédito, próprio, seu, mas é também o sonho que inaugura salas, quartos e varandas na casa de sua mãe. Você me cresceu. E um dos cômodos mais intrigantes que vieram à tona com a sua chegada é, ao mesmo tempo, muito novo para mim e antiguíssimo na história do mundo, é o espaço que abriga o sagrado feminino.

Você me instrui sobre ele quando põe em funcionamento seu incrível senso de organização e me ensina a colocar cada coisa material e imaterial no devido lugar. Quando cuida das bonecas, do seu irmão e de todo mundo que considere mais frágil no momento. Quando lidera as atividades e toma a frente até dos adultos, sem pestanejar. Quando reconhece com tanta naturalidade as semelhanças e diferenças entre nós. Quando, nas noites de insônia, você me pergunta sobre sua avó, sua bisa e outras mulheres que a antecederam, reconhecendo que todas são, em parte, suas mães e suas filhas (essas foram palavras suas). Assim, você entrelaça gerações, formando um desenho original na antiga trama da vida. Você brinca de ancestralidade como quem colhe flores, filha, e fala sobre a minha avó, falecida poucos meses antes da sua chegada, com uma familiaridade assustadora.

O feminino que você me inspira, L.a., usa saia florida, tem premonições sobre o futuro, investiga o coração das pessoas e cria um vínculo que me liga a você e a uma legião de mulheres diferentes entre si, mas que reconheço como parceiras no segredo que carregamos. E isso, filha, é mesmo sagrado.

Por esse e outros espaços que você me abriu, meu amor, obrigada. Eles têm vista para o mar.

     
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Depressão pós-adoção


Filhos

Eu me questionei um bocado se deveria escrever sobre o assunto, se os benefícios valeriam as sombras que o tema inevitavelmente gera. Daí lembrei dos quatro princípios que escolhi para a educação de vocês e que nos guiarão nessa aventura avassaladora chamada família. A verdade é um dos pilares eleitos, mesmo que ela faça doer ao pavimentar os caminhos. Então vamos.

Tudo começou antes mesmo de trazer vocês para casa, quando ainda estávamos no estágio de aproximação. Era uma sensação constante de estranhamento, de que tinha algo importante fora do lugar. Culpei o cansaço, o stress, o excesso de decisões fundamentais que estavam sendo tomadas em um curto espaço de tempo e segui em frente. Todo dia acompanhando a evolução de ambos, gradual e contínua. Todo dia me sentindo um pouco pior.

A coisa estourou mesmo um mês após nossa chegada em casa. Eu tinha caído num buraco muito mais profundo que a minha capacidade de salto. Quando acordava, olhava para o relógio e calculava quantas horas faltavam para voltar a dormir, queria que o dia simplesmente se extinguisse. Eu só conseguia enfrentar as piores partes da rotina criando fantasias bizarras, que acalentavam meu coração com desejos de morte. Quis sumir. Quis esquecer. Quis deixar de ser.

E tudo isso não fazia sentido algum. Vocês, as crianças tão sonhadas, estavam ali, aprendendo a me chamar de mãe, a ganhar colo de vó, a escalar o tio comprido, a desbravar a escola. Mais gordinhos, mais risonhos, mais à vontade para fazer tolices, mais tudo. E eu, a mãe, afundando sem escalas na areia movediça.

Com toda franqueza do universo, eu poderia imaginar tudo com relação à maternidade, qualquer tipo de desafio a enfrentar, menos que eu seria minha pior inimiga. Que partiria de mim a rejeição, o desamor, a afronta frente ao presente que a vida tinha me dado. Virei a personificação do pesadelo que eu nem sabia ter.

Como todo problema maiúsculo, a depressão não tem uma única causa e hoje somo várias hipóteses para tentar entender a minha. Primeiro, meu pai tem uma forma atípica e muito severa da doença. Mesmo sabendo do componente hereditário do problema, achei que eu estava a salvo do risco, imaginava que, se algo tivesse que me assolar, já teria aparecido anos atrás. Ledo engano.

Segundo, a depressão tem tudo a ver com a intensidade das coisas. O que significa que mesmo eventos muito aguardados podem desencadear uma crise. Ironicamente, felicidade também dá tristeza e isso é de um desconsolo tremendo.

Terceiro, ao contrário do que ocorre com a maioria dos adotantes, eu sempre quis um estágio de aproximação longo, com pausas para reflexão, intervalos entre as visitas, respiro,  preparação e certeza. Mas como vocês vieram de muito longe, tudo isso foi para o espaço. Não dava para ficar todo o tempo do mundo fora, sem trabalhar, na casa de parentes (mesmo os mais amados), com a vida em suspenso. Era preciso trazê-los rapidamente e muita coisa foi atropelada, para mim e para vocês.

Havia também a questão do perfil. L.a. atendia às minhas expectativas quanto à idade. L.o. não. Jamais quis um bebê ou uma criança pequenina, nunca me senti atraída por elas e não estava nos planos um garotinho ainda de fraldas.

Aliás, nem mesmo um garotinho. Meu perfil no Cadastro Nacional de Adoção era estritamente feminino. Só depois que comecei a terapia, percebi o quanto a minha relação com o sexo masculino em geral estava deteriorada e que eu teria de desconstruir décadas de desconfiança profunda em relação aos homens. Hoje, L.o, um dos meus maiores cuidados é não ver em você o que os outros foram.

Há também a questão de vocês terem chegado dois de uma só vez. Um amigo me alertou que pais de gêmeos têm muito mais depressão que os de “uma criança de cada vez”. Claro, é maravilhoso o apoio que vocês oferecem um ao outro, o quanto a presença do irmão/da irmã facilitou a adaptação, mas nem por isso deixa de ser pesado abraçar duplamente, sobretudo no caso de uma mãe tão amadora feito eu.

Filhos, eu sou amadora no sentido mais amplo da palavra. Simplesmente não havia crianças na minha vida antes de vocês chegarem, nem sobrinhos, nem nada. Somente a V., minha afilhada afetiva, cumpria esse papel, mas ela sempre foi mais adolescente que criança, sempre esteve anos a frente da própria idade. Por mais que eu quisesse isso – e eu queria muito – vocês foram um tsunami infantil em uma vida inteiramente adulta. Imagino que com a redução drástica do número de filhos nas últimas décadas e com o fato de os casais demorarem mais tempo para tê-los, esse seja um problema bem mais comum hoje em dia que foi no passado.

Talvez durante muito tempo eu seja a única mãe adotiva que vocês conheçam que vá falar sobre o assunto. A maioria passa por anos de tentativas infrutíferas de gravidez e depois outros tantos na fila da adoção, o que gera uma negação profunda em admitir qualquer tristeza ante a chegada dos filhos. Falta discussão, faltam pesquisas sobre o tema, falta saber como sair dessa.

E foi mesmo bem difícil deixar do fundo do poço, se é que eu posso dizer que estou fora dele.

A presença da sua avó foi fundamental nesse processo, mesmo depois que o assunto se tornou tabu entre nós duas. Ela é minha bússola na vida, na de vocês também.

A terapia foi outra instância decisiva. Muitos amigos ofereceram ajuda (obrigada, obrigada, obrigada!), mas não deu para dispensar orientação profissional. Fui acompanhada por uma psicóloga do postinho de saúde perto de casa, pelo SUS, que demonstrou que coisa linda é o atendimento público de qualidade. E se eu tivesse que ir para o psiquiatra e tomar remédios, beleza, iria sem preconceitos. Ninguém deve temer pedir ajuda quando precisa.

Também li tudo que recomendaram. Me obriguei a cumprir práticas diárias que percebi como terapêuticas. Fiz tarefas de casa. Me esforcei e me esforço horrores para ficar inteira, às vezes com sucesso, noutras não. Ainda tenho episódios intensos de disforia, quando nada dá alento, mas já não é todo dia, nem o dia todo.  E coisas completamente inusitadas tem ajudado de maneira surpreendente. Por exemplo, comecei a seguir dezenas de pessoas estranhas no Instagram, gente de idades, profissões e lugares diversos. Uma delas é uma mãe de quatro filhos, todos eles planejados, ou seja, trata-se de alguém que gosta e entende da coisa. Depois do nascimento do caçula, ela escreveu que, mesmo com a experiência acumulada, é difícil se acostumar a uma nova pessoa na sua vida e quase tudo se resume a isso: acostumar-se. Acostumar-se com o bom e com ruim, porque tudo vem no pacote. Por mais que se ame alguém, não é divertido dar banho nessa pessoinha diariamente por anos a fio, o jeito é se acostumar e ponto. Pode parecer uma ideia simplória, só que não.

Falando nisso, para mim foi uma surpresa me reconhecer mais no relato de desespero das mães biológicas de recém-nascidos que nas falas das mães adotivas. Sempre rejeitei convictamente as analogias entre adoção e nascimento, mas tive que dar a mão à palmatória que eu parecia muito mais com as descabeladas dos bebês que de qualquer outra figura materna.  E quero deixar registrado meu imenso pesar por elas, pelo fato de a depressão pós-parto ser considerada apenas uma consequência hormonal, quando isso é apenas a ponta do iceberg. Crianças são drogas da pesada.

No meu caso, a adoção foi um gatilho para um episódio depressivo grave. Outros fatores e acontecimentos também poderiam detonar uma crise e ainda podem. Pelo resto da vida eu vou precisar me cuidar, identificar disparadores e desativá-los. E notem a fina ironia, para quem tem medo de a adoção trazer um filho com algum problema, taí um problemão que é da própria adotante e não da cria. Ninguém está a salvo sequer de si mesmo.

Ter vocês, L.a e L.o, conhecê-los e adotá-los, foi desde o início uma experiência emocionante, mas só agora começa a ser uma experiência feliz. Aos poucos, vamos acertando nosso ritmo na valsa e a coreografia ganha contornos mais suaves. De toda essa história, que nos reste uma grande certeza, de que sua mãe lutou e ainda briga muito para ficar bem por vocês, para vocês. Meu pai não tomou essa mesma decisão, na hora de escolher entre a família e a doença, ele seguiu pelo caminho errado. Já as nossas trilhas vão até as águas da vida. Vocês não são minha doença, são minha opção pela sanidade, são minha saúde. No futuro, espero ser parte da de vocês.


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A soma das letras

Filhotes

Gosto de perguntar para os amigos a história de seus nomes, entender como eles se tornaram Marias, Custódios, Sephoras ou Túlios, descobrir onde pais e mães buscaram inspiração na hora de escolher uma marca tão profunda para os rebentos.

Normalmente, as respostas me permitem um vislumbre privilegiado do jeito de pensar e de ser de cada família, uma bisbilhotice consentida que já me proporcionou relatos engraçados, inusitados, às vezes até trágicos, não raramente comoventes.

Mas apesar da minha coleção particular e deliciosa de narrativas, muito provavelmente eu mesma jamais saberei a história dos nomes de vocês, meus filhos. Nunca vou descobrir se eram desejos antigos ou foram frutos de um impulso, de quem terá sido o deleite ou o ônus da escolha, como e quando o martelo da decisão foi batido. Simplesmente não há, nem haverá respostas para estas e outras dezenas de indagações que teço sobre suas vidas antes do nosso encontro.

Por mais paradoxal que pareça – e é – uma parte de mim é atraída exatamente pelo mistério sereno, porém contundente, que os cerca; pela impenetrabilidade da esfinge que jamais revela seu segredo primordial. De novo, não há, nem haverá respostas. E, filhos, saibam: há muita força em não saber. Um poder que respeito e aceito.

Outra parcela de mim, no entanto, receia que seus nomes, somados às demais questões insolúveis que virão, alimentem em vocês o senso de vazio das origens. Espaço em branco impertinente, desses que não matam, mas magoam.

A esse respeito e também sobre os muitos silêncios que enfrentaremos pela frente, tenho apenas uma coisa a lhes dizer: à medida que a vida segue, colorida e intensa, cada vez importa menos de onde a gente vem, ganha mais relevância para onde a gente vai.

Por coincidência, L.o., você veio parar em uma família em que seu nome já era marca registrada. Uma tradição inesperada caiu no seu colo, você é o quinto menininho, em três gerações, a chamar-se do mesmo modo. Mas nem por isso a vida está ganha. Os adjetivos que as pessoas vão associar a você não vão depender de seus homônimos, mas exclusivamente de seus talentos individuais, do que você vai ser e fazer. O sentido do seu nome é você quem vai criar e recriar. Prometo, meu guri.

Já o seu, filha, também é um achado. Não posso escrevê-lo ainda aqui, mas L.a. parece, simultaneamente, um diminutivo e um superlativo e você não poderia ter retrato mais fiel – é uma pequerrucha em estatura e imensa no espaço que ocupa em nossas vidas. No que mais você será superlativa, só tempo e suas escolhas vão dizer.

Nunca cogitei trocar seus prenomes, eles são um pedaço indissociável das pessoinhas que entraram por aquela porta para ficar. Apenas acrescento o sobrenome como um abraço apertado em público, um sinal de fumaça para o resto do mundo, que ainda precisa processar a mudança ocorrida da família para dentro. Vocês, eu, sua avó, seu tio, seus parentes de perto e de longe vamos compartilhar esse conjunto de letras e sons que nos irmanam na tribo que somos. Que vocês o carreguem com apreço.

E nunca, jamais, em tempo algum, esqueçam da verdade profunda que sua mãe cultiva: vocês não são os nomes que selecionei, são as pessoas que escolhi.


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Porta de entrada


Filhotes

Minha mãe, sua avó, aquela senhora engraçada, dedicada e loucamente apaixonada por vocês, conta que quando eu era pequena, lá pelos três anos de idade, inventei um passatempo pouco convencional. Todos os dias pegava uma malinha de viagem embaixo da minha cama, dava a volta no quintal e batia na porta de casa. Sua avó atendia e eu me apresentava. Dizia ter ficado órfã devido a um acidente com meus pais e precisava de casa e comida. Minha mãe embarcava na fantasia e me deixava entrar, mostrava a casa e explicava que, para ficar ali, eu teria de trabalhar. Desengonçada, eu pegava a vassoura enorme e começava a arrumar os cômodos, me encantando com os brinquedos que encontrava no caminho.

– Você tem uma filha?!? – eu me fazia de surpresa.

– Tenho. Essas coisas são dela – explicava, divertida, sua avó.

O faz-de-conta durava horas, mesmo depois de o meu pai chegar. Era minha brincadeira favorita.

A diversão durou até minha mãe contar à sua própria mãe, bisavó de vocês, o que eu inventava toda tarde. Do outro lado da linha telefônica, a bisa foi enfática: aquela história tinha de parar, do contrário, eu ia acabar acreditando nela, pensando ser filha biológica de outras pessoas. Sabendo do terreno realmente fértil da cabecinha infantil, minha mãe decidiu intervir. Quando eu fazia menção de pegar a mala, ela sugeria outra atividade, emendava um atrativo no outro e a narrativa da orfandade foi sendo deixada de lado, dia após dia. No final das contas, esqueci. Aliás, esqueci tão completamente que só soube da brincadeira de infância já adulta, quando comecei a falar em adoção com sua avó e ela tirou esse episódio do baú da memória.

Os espiritualistas convictos dirão se tratar de uma lembrança de outra existência, quando possivelmente fui mesmo órfã, e que por isso, nessa vida, devo retribuir o ato de adoção. Já os céticos vão torcer o nariz para uma explicação tão extravagante, sugerindo que eu esqueci só na superfície, mas que na verdade a história permaneceu no fundo da minha mente, pronta para vir à tona em outro momento. Os práticos vão dar de ombros, alegando ser impossível saber se tudo não passa de uma coincidência.

Não sei para que lado o pêndulo de vocês vai oscilar e em que explicação vão escolher crer. Mas em qualquer dos casos, L.a e L.o, torço para que sintam sua própria adoção como aquela minha história quase perdida no tempo. Ou seja, não como uma experiência presa no abandono ou nos aspectos trágicos da vida, mas como uma instância de acolhimento, amparo, consolo e escuta. Como meus pais abriram as portas de casa para mim, eu abro os braços para vocês, para que venham com suas malinhas e narrativas pregressas, prontos para brincar no meu quintal.

Bem-vinda, L.a.  Bem-vindo, L.o. Que sejamos, de agora em diante, muito mais felizes. 

(Imagem gratuita, do Pixabay)